quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Chega de saudade
Chega de solidão.
Quero você, minha metade,
Aqui, na palma da minha mão.
Há muito não sentia o que senti.
Foram sentimentos que criei quando estava em ti.
E, agora que nem eu nem você estamos no outro
Eu não consigo mais pegar, cheirar, sentir, muito menos ver o ouro.
Me sentia egoísta em querer-te só pra mim,
mas você foi mais, você fez assim:
Me seduziu, me enamorou, me conquistou
E como se não batesse um coração, me largou, me abandonou.
Ainda resta aqui no meu peito o seu peito.
No meu nariz, o seu cheiro.
Na minha vontade,
infelizmente, somente a minha vontade.
Procuro por teu rosto barbado,
Seu corpo suado.
Em rosto não barbado,
Em corpo nada suado.
Estou perdendo você da minha visão
Minha busca está sendo em vão.
Nunca encontro tua mão.
Pra me tirar dessa solidão.
Chega de saudade.
Chega de solidão.
Quero você, minha metade,
Aqui na palma da minha mão.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
De fato
Sempre tive amores que julgo impossíveis. Não que todos foram de fato.
Sempre achei que amava todos os meus amores. Não que amei todos de fato.
Sempre achei que eles não gostavam de mim. Não que eles não gostassem de fato.
Sempre aprendi muito com as desilusões amorosas. Não que eu tenha aprendido de fato.
Sempre que eu me apaixonava de novo, esquecia o que havia aprendido. Não que eu fosse esquecida de fato de um fato.
É só que... o amor renova esperanças. Não sou esquecida de fato.
A cada novo amor, novas esperanças.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Estou com amor.
Há uns três meses,
Comecei a ter taques cardíacos,
Suadouro nas mãos,
Coceira no pescoço,
Dedos inquietos,
Pernas bambas,
Olhares atentos,
Audição aguçada,
Tato hiper-sensível,
Pernas com alguns roxos,
Lábios mordidos,
Memória detalhada.
Há uns três meses,
Comecei a ficar boba,
Romântica,
Piegas,
Poetisa,
Sonhadora.
Em três meses,
Já fui em cardiologista,
Psicólogo,
Psiquiatra,
Oftalmologista,
Otorrinolaringologista,
Alergologista,
Clínico geral,
Pai de santo,
Benzedeira.
Hoje, depois de ver alguns carros na rua, fui, por uma amiga, diagnosticada com amor.
Ela me passou a receita. Fui até a farmácia e não encontrei o remédio.
Receita:
Reciprocidade de sentimentos.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Morrer na esperança.
Disse a mim mesma que quando ele partisse eu o deixaria levar todo o carinho que eu sentia. Estava disposta a esquecer todos os suspiros que ele me proporcionou que o vento da madrugada levou. Não consegui. Parece que a cada dia da data da partida cresce em mim um amor inversamente proporcional à distância que nos separa.
No meu peito, não somente no esquerdo, guardo todos os segundos, todas as letras, piscadas, sorrisos, mordidas, falta de ar, gotas de suor e um “ai”, que eu ainda vou dizer. Eu quero dizer. Preciso dizer e preciso dele pra dizer. Quero dizer com ele. E quero que esse seja o “ai” que mais valha a pena ser dito.
Meu cicatrizado me deixou com suas coisas, com seu cheiro, com seu apelido, com a marca da sua bunda. Não deixei barato. Mandei um pouco de mim com ele. Mandei um pouco da minha essência e se ele souber ler as minhas entrelinhas entenderá tudo.
Arnaldo, meu bom, Arnaldo, crie uma música nossa. É a chance que tenho de não morrer na esperança.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Clara Maciel
Ora menina, ora mulher.
Às vezes ora como menina
Às vezes como mulher.
Tem por volta de vinte anos e até hoje morre de vergonha dos pés. Dependendo do sapato calça trinta e nove, dependendo calça quarenta. Fica estressada quando não acha sapato pro seu pé. Por ela, só usaria tênis, sente-se envergonhada quando olham para o membro que a sustenta.
Mas Deus foi generoso com Clara. Deu a ela um corpo de quase um e oitenta no formato violão. Os músicos ficam atiçados para tocá-la e ouvir a melodia produzida. Os cachos do cabelo vão do ruivo ao dourado, fazendo qualquer manhoso querer ficar embaixo desses caracóis.
Suas pernas são admiradas por muitos. As coxas não são grossas, são compridas. Mas não são magras, são bonitas. Seus olhos também são assim: não são verdes, nem azuis, são pretos, negros, profundos. Quando quer, o olhar é sincero, quando precisa é irônico e quando gosta é sensual.
Deus foi generoso com Clara, mas foi também com a população. Ela nasceu delicada como uma rosa, provavelmente morrerá assim, é discreta como as borboletas são, ainda não é mãe, mas seu coração é igual ao de uma. Queria poder usar bigode. Faz um arquivo pessoal e sonha que um dia algumas das suas frases virem provérbios, alguns dos seus poemas sejam estudados, consiga escrever um livro e torce pra achar um doido para transformar seu apanhado de palavras em música.
Cheia de sonhos, metas, vontades, falta-lhe só a coragem. Espera um dia encontrar com ela, mas a quer na forma de uma pessoa. Um homem, de preferência. Pra que ele entre com a coragem na vontade.